BRASIL: CRISE CAPITALISTA E A UNIDADE ENTRE RACA, GENERO E CLASE NA LUTA DE CLASES

Marina Machado Gouvêa*   

O Dia Internacional das Mulheres (conquistado na luta e datado pela greve liderada por mulheres que deu início à Revolução Soviética) chega neste ano em meio ao acirramento da crise capitalista, com os efeitos da pandemia, o aumento da miséria e a conflagração direta na Ucrânia.

Trata-se de uma crise profunda e multidimensional. É crise econômica, vinculada à base produtiva e não apenas à mal-chamada “esfera financeira”; é crise política, de legitimidade do estado de direito burguês, com o acirramento de golpes de Estado e a corrosão das poucas ‘liberdades democráticas’, que jamais foram acessíveis às grandes maiorias; é crise hegemônica, na disputa cada vez mais acirrada entre China e EUA, pela qual se movimenta a Rússia, e que se desdobra por todas estas dimensões –inclusive a militar e a das guerras híbridas; é crise ambiental, cuja profundidade põe em risco a sobrevivência da humanidade e de outras espécies, contrapondo o capitalismo a nada menos que a existência humana; é, ainda, crise de alguns dos valores mais profundos da modernidade capitalista, como a noção de que existe um ‘ser humano universal’, abstrato, incorporado na figura do ‘indivíduo cidadão’. Este ‘homem universal’ na realidade corresponde plenamente apenas a homens, e não a todos eles, sequer à maioria: somente aos homens brancos e proprietários. Esta última dimensão tem sido explicitada pelos movimentos feminista e antirracista, que cresceram imensamente nos últimos cinco anos ao redor do mundo.

Reconfiguração capitalista, raça, gênero e classe

As crises capitalistas constituem pontos de inflexão na forma da acumulação e da reprodução social, quando se generalizam e se não se dá a superação do próprio capitalismo em escala global. É inevitável a disputa nesta reconfiguração: entre potências, entre capitais e entre classes sociais. A dialética do desenvolvimento capitalista é também dialética da luta de classes.

A covid-19 aprofundou a crise que se estendia desde 2007-2008 e vinha dando sinais de novos desdobramentos ainda em 2019, inclusive militares, com os avanços em tecnologia bélica por parte da China e da Rússia e com uma nova ofensiva estadunidense, que desembocou no assassinato de Qasem Soleimani em janeiro de 2020. Durante a pandemia, um novo bilionário surgiu a cada 26 horas no mundo, enquanto a miséria contribuiu para a morte de uma pessoa a cada 4 segundos (OXFAM, 2020, Tempo de cuidar. Oxford: Oxfam House). A pobreza é maior entre as mulheres: ganham menos pelas mesmas atividades, são maioria no trabalho informal, criam filhes sozinhas, têm maiores taxas de desemprego e têm menores aposentadorias (quando as têm). No mundo, os homens detêm 50% a mais de riqueza que as mulheres (OXFAM, Idem.). Além disso, as mulheres trabalham mais: realizam pelo menos 12,5 bilhões de horas de trabalho reprodutivo não remunerado (idem). Sofrem com piores condições de vida, mesmo dentro da classe trabalhadora. A raça, por sua vez, tem relação direta com a classe social, em todas as partes do mundo. No Brasil, 75% des pobres são negres e, dentre a minoria rica, 70% é branca (IBGE, Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Brasília: 2019). A pandemia piorou esta realidade: no país, pessoas negras tiveram 1,5 vezes mais chance de morrer de covid que pessoas brancas (OCDE, 2021, Health at a glance).

No início de 2021, a OIT estimou que meio bilhão de pessoas ficaram desempregadas ou subempregadas em razão direta da pandemia, sujeitas à miséria e à fome (OIT, 2021). A maior parte delas são mulheres e pessoas não brancas. Houve ainda o aumento dos feminicídios e da violência de gênero contra mulheres em seus lares, além da sobrecarga de trabalho reprodutivo não remunerado. Além disso, 75% des trabalhadores da saúde no mundo são mulheres (OXFAM, 2020, op. cit.), sendo que as não brancas ocupam postos mais rebaixados. Note-se que a própria mercantilização das vacinas impossibilita o fim da pandemia: países africanos como a República Democrática do Congo vacinaram menos de 1% de sua população. Na América Latina, o Haiti vacinou apenas 0,88%. Enquanto isso, na Europa já é oferecida a quarta dose. Também aqui está a determinação pela raça. Lembremos ainda que, apenas em 2020, a fortuna des bilionáries no mundo cresceu USD540 bilhões, suficientes para cobrir a vacinação contra a Covid-19 de toda a população mundial (OXFAM, 2021, O vírus da desigualdade, Oxford: Oxfam House).

A profundidade da crise exige e possibilita uma reconfiguração na acumulação. Até agora, está reconfiguração tem tido seu eixo no aprofundamento do neoliberalismo (entendido como tecitura da própria reprodução capitalista desde as décadas de 1970-80), em especial com a transformação das relações de trabalho, bem como a ofensiva aberta da classe dominante contra os povos do mundo. O aprofundamento das contradições traz consigo novos horizontes de luta. Mas, para aproveitá-los, há que se entender que a classe trabalhadora não existe ‘em abstrato’. Nada existe em abstrato.

Não sou eu uma mulher?

Não raro, a história de lutas das mulheres é retratada como uma série de lutas por liberdades civis e direitos sociais. O direito ao voto, à equiparação salarial. Fica, assim, restrita a uma esfera de “lutas democráticas” reivindicadas nas próprias revoluções liberais (e conquistada apenas para os homens brancos), que é frequentemente entendida na esquerda como sendo menos importante que a luta de classes. Estas classes, contudo, não existem em abstrato.

Entender o racismo e a misoginia apenas como ‘somatória de opressões’ e seu enfrentamento somente como ‘lutas democráticas’ oculta a divisão social do trabalho.

É enorme a contribuição das mulheres negras, em especial do feminismo negro marxista, para o entendimento da concretude como totalidade. Ao se perguntar ‘não sou eu uma mulher?’, contrapondo sua realidade à luta de mulheres da elite por maiores direitos civis, a ex-escravizada negra Sojouner Truth escancarava a divisão racial do trabalho como parte da determinação de classe, bem como sua indissociabilidade com a divisão sexual do trabalho.

Não se trata apenas de opressões que se somam, ou que particularizam a exploração de classe, mas poderiam ser secundarizadas em uma perspectiva classista. Estas opressões existem e têm por base a divisão racial do trabalho, a divisão binariogenerificada do trabalho e a divisão territorial do trabalho, como dimensões da própria divisão social do trabalho. Tais dimensões impactam a determinação ética do valor da força de trabalho dos distintos contingentes particulares da classe trabalhadora. Impactam também a determinação do valor da força de trabalho da classe em seu conjunto, inclusive dos homens brancos trabalhadores em países centrais, na medida em que contribuem para a invisibilização do trabalho reprodutivo não mercantilizado. Ao não ser reconhecido como trabalho em nossa sociedade, o trabalho reprodutivo não ligado à produção ou circulação direta de outra mercadoria que não a própria força de trabalho (realizado majoritariamente por mulheres não-brancas) não entra na formação do valor de troca da força de trabalho. Se entrasse, o conjunto dos salários de trabalhadorxs teria de ser maior, diminuindo a apropriação de mais-valia.

Sobre a importância e os desafios do marxismo em nosso momento histórico

Estas dimensões da divisão do trabalho indicam a razão pela qual uma mulher da classe dominante não tem em última instância interesse no fim da divisão sexual do trabalho, nesta sociedade; e mostram que o conjunto da classe trabalhadora precisa reconhecer seu interesse na centralidade do combate ao racismo e à misoginia.

O marxismo é imprescindível no reconhecimento destas determinações e sobredeterminações. O bom marxismo, porém: não idealista e essencialista. O racismo e a misoginia só poderão ser superados com o fim do capitalismo. E a superação definitiva do capitalismo exige superar o racismo e a misoginia. O trabalho reprodutivo e o cuidado são necessários à reprodução da vida e devemos todos sermos capazes de cuidar.


*Brasil, GT Crise e Economia Mundial, Doutora em Economia Política Internacional e professora da UFRJ.. Membra da junta diretiva da SEPLA (Sociedade Latino-Americana de Economia Política e Pensamento Crítico)