O coronavirus e a crisis economia no Brasil

Marcelo Diaz-Carcanholo

O momento econômico pelo qual passa a economia mundial nesse exato momento é extremamente complicado. Vários analistas já afirmam até com dados estatísticos bastante robustos que se trata de uma profunda recessão mundial, uma das maiores pelas quais a economia capitalista já passou, atingindo todas as partes do globo. Isto implica uma redução do nível de atividade econômica com redução de empregos, renda, aumento do desemprego com consequências sociais que podem levar, em algumas situações e regiões, a um verdadeiro caos social. 

uma redução do nível de atividade econômica com redução de empregos, renda, aumento do desemprego com consequências sociais que podem levar, em algumas situações e regiões, a um verdadeiro caos social

O primeiro que temos que pontuar a respeito é que o coronavírus não é propriamente a causa dessa crise. Evidentemente ela estoura a partir da Covid-19, do aparecimento do novo coronavírus, mas antes do estouro dessa pandemia, a economia mundial já estava na iminência do estouro da nova fase da crise. A razão disso é que ela estava superacumulada em títulos financeiros com uma produção real da economia que não acompanhava esses direitos de apropriação representados por esses títulos, ou seja, o chamado estouro da bolha financeira já era esperado há algum tempo.

Por onde iria estourar e qual seria o fator detonador era uma discussão conjuntural. O que vemos agora é que esse fator detonador foi justamente a pandemia da Covid-19, mas ela não é propriamente a causa da crise econômica.

Algumas instituições, especificamente o FMI, mas não apenas, estão prevendo uma recuperação da economia mundial apenas para o ano que vem se, e somente se, a pandemia for controlada ou existir algum sucesso no seu controle nos próximos seis meses, ou seja, o próprio FMI reconhece que se ocorrer algum tipo de descontrole na pandemia nesse momento, de meados de 2020, nem em 2021 a economia mundial se recuperaria.

Essa análise do FMI é extremamente otimista. Vários outros analistas veem que, por melhor que seja o controle dessa pandemia, mesmo em 2021 a economia mundial ainda vai ter sérios problemas para se recuperar, isso basicamente pela razão que detona a crise, ou seja, o forte acúmulo de títulos financeiros, direitos de apropriação sobre uma produção que, mesmo que volte a crescer em algum patamar a partir de 2021, ainda não o fará nas taxas requeridas para fazer frente a esse direito de apropriação dos títulos financeiros.

Para que fosse possível uma retomada consistente da economia mundial em 2021 seria necessário, por um lado, que a produção voltasse a níveis que já não vemos há muitos anos, pelo menos desde antes do estouro da crise de 2007 e 2008, e, ao mesmo tempo, uma massa desses títulos financeiros superacumulados fosse queimada pela desvalorização em função da própria crise. A combinação desses dois fatores seria o único cenário possível para que a economia pudesse voltar a ter algum crescimento consistente a partir de 2021, o que não parece plausível.

O Brasil, nesse cenário todo, se encontra duplamente complicado justamente pelo fato de ser uma economia dependente.

O Brasil, nesse cenário todo, se encontra duplamente complicado justamente pelo fato de ser uma economia dependente. Portanto, ele sofre o reflexo dessa recessão mundial, o que significa dizer que com a redução da renda mundial, as nossas exportações tendem a cair abruptamente, em um cenário já de forte restrição da demanda agregada.

Por outro lado, a grande incerteza do mercado financeiro tende a fazer com que ocorra uma corrida ao dólar em todo mundo, ainda mais em países periféricos e com forte propensão a crises cambiais como é o caso da economia brasileira, o que significa que ela ainda vai sofrer uma fuga de capital talvez mais acelerada do que a que já vivemos.

Portanto, a economia brasileira tem um impacto mais do que aprofundado nesse cenário de profunda recessão mundial. Além dos determinantes estruturais – o fato de que estamos inseridos subordinadamente na divisão internacional do trabalho – existem fatores conjunturais em função das estratégias de desenvolvimento liberais que vêm sendo implementadas no país há algumas décadas, agravadas por políticas econômicas em muitos dos casos pró-cíclicas.

No atual cenário da crise pandêmica, se por um lado a política econômica do Brasil para tentar responder a essa crise dá alguns sinais de comportamento anticíclico, como por exemplo, o Banco Central afrouxando mecanismos de reserva compulsória, ou até instrumentos mais diretos de aumento da liquidez. Entretanto, esse aumento da oferta de liquidez para o sistema financeiro não é repassado para a ponta do crédito de capital, justamente porque a elevada incerteza da economia aumenta a preferencia pela liquidez do sistema financeiro.

Nesse ambiente, os bancos tendem a racionar o crédito, portanto retendo essa liquidez em seus ativos, e quando parte desses recursos é direcionada para crédito, eles são direcionados com altas taxas de juros, o que torna inviável qualquer tipo de plano de investimento produtivo mais alavancado na produção real. Portanto, este mecanismo da política monetária se torna ineficaz em função do elevado grau de incerteza na economia que restringe o crédito no sistema bancário.

Outra ação propalada pelo governo para tentar combater essa crise diz respeito a tímidas iniciativas de garantir algum tipo de renda ou benefício principalmente para trabalhadores informais e também para algumas empresas menores, no intuito de manter o pouco de atividade que resta delas e o nível de emprego a elas associado. Mas essas medidas são muito tímidas, tanto em termos de valor, para ficar em um exemplo mais atual, o benefício de R$ 600 para os trabalhadores informais, algo extremamente tímido tanto pelo seu valor, o correspondente a cerca de US$ 115, algo em torno a 60% do salário mínimo do país, como por sua duração, apenas por três meses para trabalhadores e trabalhadoras que não têm nenhuma forma de renda nesse momento em que a atividade econômica está beirando o colapso.

Trata-se, portanto, de um mecanismo extremamente insuficiente pelo valor, pela temporalidade, e pelo seu caráter restrito porque não atinge a todos os indivíduos, todos os trabalhadores e trabalhadoras que são atingidos por essa paralisia da atividade econômica. 

Outro indicador das contradições na sinalização da política econômica do governo, que deveria ser anticíclica para promover a volta da renda, da demanda, do emprego e, portanto, da atividade econômica, é a sinalização muito clara que se dá por parte não só do Legislativo, mas com apoio muito forte do Executivo, de redução de salários, por exemplo, do funcionalismo público.

A proposta apontada é de forte redução dos salários do funcionalismo público, algo em torno de até 20% do total do rendimento bruto, por um período que se prolongaria até 2024, sob a falsa alegação de que se trataria da única maneira que o governo teria de poupar recursos para poder atuar com gastos públicos e beneficiar aqueles trabalhadores mais pobres.

Além disso, aprovou-se uma medida que permite às empresas privadas reduzirem a jornada de trabalho concomitantemente aos salários enquanto suas atividades não forem retomadas nos patamares anteriores à crise. A promessa do governo de complementar o restante dos salários é insuficiente, na medida em que possui um limite muito baixo e não atinge grande parte dos setores produtivos mais precários.

Timidez no enfrentamento da crise e volúpia na imposição do custo do ajuste para a classe trabalhadora. Esta é a marca do governo brasileiro.

O que se vê atualmente na economia brasileira é uma resposta tímida do governo aos efeitos da COVID-19 de aprofundamento da crise. Ainda que a política econômica (monetária e fiscal) de curtíssimo prazo seja anticíclica, o governo já sinaliza para a necessidade de aprofundar o ajuste fiscal e as reformas estruturais no médio e longo prazo, para financiar o crescimento da dívida pública que decorreria dessa atuação. Timidez no enfrentamento da crise e volúpia na imposição do custo do ajuste para a classe trabalhadora. Esta é a marca do governo brasileiro.

Marcelo Diaz-Carcanholo: Brasil, GT Crisis y Economia Mundial, professor de Economia na Universidade Federal Fluminense.

Argentina En Los Días Del Coronavirus

La pandemia le ha dado la oportunidad al presidente de Argentina, Alberto Fernández, de presentarse como un jefe de estado responsable

Por Daniel campione

La pandemia le ha dado la oportunidad al presidente de Argentina, Alberto Fernández, de presentarse como un jefe de estado responsable, que toma sus decisiones con alcance y tiempo adecuados, colocado en la cúspide en una cadena de mandos “piramidal”. Optó por la línea más dura en las restricciones a la ciudadanía, con ampliación de las facultades de inspección y control del aparato estatal y mayores funciones de vigilancia para las fuerzas de seguridad.

El coronavirus ha cambiado las prioridades. La renegociación de la deuda aparecía como primer objetivo del gobierno y después de realizada ésta se trazarían las grandes líneas de política económica. Si antes había razones para exigir la suspensión de los pagos e investigar la deuda, ahora con el COVID-19 esta salida es más necesaria para volcar los recursos a combatir la pandemia y el impacto económico social de la misma.

Si antes había razones para exigir la suspensión de los pagos e investigar la deuda, ahora con el COVID-19 esta salida es más necesaria para volcar los recursos a combatir la pandemia y el impacto económico social de la misma.

 El gobierno al principio pareció contar con el beneplácito general. Esto fue alterado por los grandes empresarios, que comenzaron a presionar por el regreso a la actividad, incluso con medidas de provocación como despidos masivos. Mientras tanto los precios de los alimentos y de los insumos sanitarios aumentan. Las entidades financieras incluso se permiten ignorar las normas que les imponen dar crédito a bajo interés.

Se elaboran proyectos legislativos que tienden a gravar con impuestos a las grandes fortunas, a modo de compensación, así sea en mínima medida, de la regresividad del sistema tributario. La respuesta por parte del gran capital es rápida y contundente, hasta circuló alguna convocatoria a la “rebelión fiscal”.

La acción del gobierno, por más que haya estado acertado en establecer la cuarentena, presenta serios rasgos negativos.

La acción del gobierno, por más que haya estado acertado en establecer la cuarentena, presenta serios rasgos negativos. Le dio el control de la calle a las fuerzas policiales, lo que comprende un intento de legitimar a esas policías que tienen más de aliadas del delito organizado que de protectoras de la seguridad ciudadana.  El gobierno no ha ampliado la injerencia de las organizaciones sociales en la atención y abastecimiento de los barrios populares, no les otorga participación en los indispensables controles de precios, no ha estimulado lo suficiente que la economía popular atienda necesidades sanitarias y de producción de alimentos. No ha sancionado con dureza las acciones represivas de la policía.

El “negocio de la salud” se apresta a lucrar a pleno al compás del avance de la enfermedad. Apenas el ministro de Salud insinuó colocar bajo control estatal a la sanidad privada, los empresarios de la atención sanitario exigieron y lograron garantías de no habrá políticas con esa orientación.

Frente a ese conjunto de situaciones, una perspectiva de izquierda impondría avanzar en el sentido opuesto:

-Que el sector público asuma la dirección de todo el sistema de salud, con participación de los trabajadores de la salud en su gestión. Esto debe ir acompañado con políticas de reconversión industrial hacia la producción de respiradores, instrumental médico, elementos de protección, etc.

-Control popular de precios en la cadena de producción y comercialización de alimentos, artículos de limpieza, insumos sanitarios y cualquier otro bien necesario para atender las necesidades más urgentes.

–El abastecimiento de alimentos para todo tipo de comedores debe realizarse con la participación de las organizaciones populares, tomando también parte en la producción de alimentos y artículos sanitarios.

-Asunción por las organizaciones populares del cumplimiento del aislamiento, en especial en los barrios carenciados en los que las deficiencias de las viviendas y la falta de servicios requieren medidas diferentes para cumplir la cuarentena.

-Transferir al Estado, con control de los trabajadores, a las empresas que despidan personal, aumenten sus precios en violación del congelamiento, o acaparen bienes provocando desabastecimiento.

-Nacionalización de los bancos con una concepción de servicio público para la actividad financiera.

-Establecimiento de impuestos extraordinarios sobre las grandes fortunas y sanciones especiales a los que han realizado fuga de capitales u otras maniobras de evasión.

-Suspensión por tiempo indeterminado del pago de la deuda externa y formación de comités de investigación para el rechazo de la deuda ilegítima u “odiosa”.

-Retiro de las fuerzas armadas de las calles, cualquiera sea el motivo de su actuación. Sanciones graves a policías o gendarmes que cometan cualquier acto de abuso.

En las próximas semanas tendremos que tomar parte en una fuerte puja en torno a cómo se instrumente la continuidad de las políticas de salud pública y sobre quiénes se descarguen las consecuencias de la crisis. Asimismo será una pugna por darle a las fuerzas represivas el máximo de control sobre las personas, con la menor fiscalización posible de esas facultades. La receta del gran capital y sus servidores será la misma de siempre: Ajuste sobre los ingresos de los trabajadores y “flexibilización” de sus condiciones de trabajo, exenciones y subsidios a su favor, pago puntual de la deuda, facilidades ampliadas para el negocio financiero, etcétera.

La receta del gran capital y sus servidores será la misma de siempre: Ajuste sobre los ingresos de los trabajadores y “flexibilización” de sus condiciones de trabajo, exenciones y subsidios a su favor, pago puntual de la deuda, facilidades ampliadas para el negocio financiero

Un punto focal para las luchas y los debates en el futuro cercano es qué mundo emergerá cuando se supere la pandemia. Esa vuelta a la “vida normal” nos debe conducir al cuestionamiento radical del estado de cosas aceptado como habitual.  Vivimos en una profunda anormalidad, edificada sobre la base del avance devastador del capital a escala mundial y la paralela expansión del consumismo, el productivismo, la destrucción de los bienes comunes, la superexplotación y precarización de los trabajadores. Esto último se propone como parte de una reorganización ultratecnológica de la producción que sirva como excusa del arrasamiento de los derechos obreros.

Habrá varias líneas de disputa con las clases dominantes y sus aparatos de hegemonía. Para mencionar tres: a) Si la “suspensión” de las rebeliones populares dejará lugar a un nuevo ciclo de vigorosas protestas o continuará el impasse. b) Si las dirigencias políticas logran aparecer como “estadistas” o quedan desprestigiados como gestores de una catástrofe. c) En el consenso genérico en que el mundo post Covid-19 será distinto, si da lugar a un cuestionamiento activo de los daños múltiples y crecientes que el capitalismo le infiere a toda la humanidad o se retomará la acumulación de ganancias sin límites ni reparos.

La decisión sobre esos puntos y muchos otros, se jugará en los tiempos posteriores, inmediatos y no tanto, al final de la pandemia. El escenario de la lucha de clases está abierto para la disputa.